Na roda, ele observava atento aos movimentos dos que jogavam ao centro. Quase hipnotizado pela melodia, ele movia o corpo lentamente de um lado para o outro enquanto acompanhava o coro. Baixava os olhos, fechando-os um pouco, mexia os braços, tomado pela música e voltava a levantar a cabeça. A energia era muita, seu corpo respondia ao toque dos instrumentos, ainda ali, do lado de fora da roda, ele dançava devagar._ Ô sim, sim, sim. Ô não, não, não...Ouvia o canto de um homem forte, cuja voz traduzia a fala de um povo que há tanto não era lembrado. Ele trazia um sorriso no rosto enquanto fazia soar o gunga em suas mãos. As batidas do atabaque marcavam o ritmo e o coro alto trazia a união das vozes de tantos que também partilhavam daquela energia. Ele estava noutro lugar, presenciando uma realidade diferente daquela que o preocupava durante o dia. A noite. A noite acompanhava-os no canto, a lua iluminava o grupo reunido, e o cavaleiro que vivia dentro dela mandava bênçãos em luta com seu dragão.Era dia de roda, sua mente inteira voltada para aquele momento, seu corpo havia esperado pelo instante de jogo, em que o diálogo seria feito com seu camarada. Respondendo ao cantador, ele permanecia na roda. Dois homens agachavam ao pé do berimbau, com as mãos juntas, faziam uma prece e reverência ao instrumento. Corpo suado, tomados pela energia, eles iniciavam o jogo.O primeiro lançava golpes ligeiros desenhados no ar, enquanto o outro o respondia como proposto. Eles moviam de forma circular, um formava o complemento do outro, dependentes desse diálogo. Como se juntos se convertessem num organismo, que vivo, respirava a melodia soada naquele ar. E brincavam. Como crianças, corriam de um lado ao outro dentro da roda. Agachavam, levavam a cabeça ao chão, trocavam a ordem das coisas levando os pés em direção ao céu. Levantavam-se e continuavam a brincadeira com uma malícia inocente, num jogo entre amigos. Vai pro lado, faz que volta, leva o corpo, e deixa as mãos colocando-as no chão e trazendo de volta o corpo embalado na dança. Um tenta derrubar o outro que forte resiste e continua com um sorriso no rosto. Braços grandes, pernas ágeis, a pele suada refletia a sua cor escura. Cumprimentaram-se e voltaram para onde estavam, ao redor dos outros dois que começavam um jogo novo.Na roda, tudo o que ele sentia seu corpo representava. A dança, a melodia, o suor, a cor, o canto, a ginga, o sorriso no rosto que era resposta à sua vontade de estar ali, era dia de roda. Mas hoje tem, amanhã não, hoje tem, amanhã não..._ Ô sim, sim, sim. Ô não, não, não...